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Em 2000 estava eu no meu 2º ano do curso de pós-graduação em ortodontia, na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Tal como acontece ainda hoje, eramos quatro alunos,
cheios de sonhos. Um desses sonhos era assistir a uma Reunião da Associação Americana de Ortodontia (AAO).
E nesse ano foi a primeira, das várias que já tive o privilégio de estar presente. Mas a primeira foi sem dúvida especial! E no meio de tanta azáfama e novidades a todos os níveis, quase me passava despercebido o lançamento de uma nova forma de fazer ortodontia com aparelhos feitos em plásticos, que hoje denominamos de uma forma genéricos alinhadores.
Mais de 20 anos passaram, e na minha opinião, graças à revolução digital que foi acontecendo, e está acontecer, os alinhadores fazem cada vez mais parte do nosso dia-a-dia. A estrutura da consulta inicial de ortodontia não teve grandes alterações nos últimos anos, mas a forma como a fazemos teve mudanças profundas. A gestão é digital, assim como o registo fotográfico e o exame ortodôntico inicial. Depois de vários anos de expectativa os scanners intra-orais entraram neste processo (também foi numa reunião da AAO que vi o primeiro scanner intra-oral), substituindo as clássicas, e por vezes odiadas pelos pacientes, moldagens em alginato. Uma análise superficial pode levar à conclusão que é apenas uma substituição ou alteração para os mesmos procedimentos.
No entanto, tudo que se segue muda de uma forma profunda a estrutura do nosso dia-a-dia na clínica. O diagnóstico, o plano tratamento e o desenho dos aparelhos podem também ser virtuais. Passamos mais tempo em frente ao computador (não sei quanto aumentou atualmente mas estimo que em breve 50 % do nosso tempo será passado dessa maneira).
As consultas são mais espaçadas no tempo e está aberta a possibilidade de controlos à distância. O trabalho para casa (TPC lembram-se!) aumentou e tem tendência para crescer!
O que não mudou? O Diagnóstico. Tal como no passado, também agora, uma grande parte dos compêndios de Ortodontia (algum dos meus Professores referiam 2/3) são diagnóstico apenas no final abordam a biomecânica do tratamento.
Eu sou dos que acreditam na importância desta proporção e por isso fiz 3 anos intensivos de pós-graduação, já com 2 filhos, após 8 anos de clinica generalista e claro uma esposa abençoada. É normal que os fabricantes de aparelhos, fixos ou removíveis, queiram vender mais e mais, o diagnóstico pouco interessa. E para nós médicos dentistas, especialistas ou não, que importância tem?

 

Escrito por Américo Ferraz – Presidente da SPODF

Artigo retirado da Revista Clínica de Ortodontia da SPODF N.5

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