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A odontogénese é um processo relativamente simples dentro do complexo que representa o desenvolvimento crânio-maxilo-facial. As estruturas dentárias têm um padrão de crescimento único e de grande estabilidade metabólica, pelo que é possível averiguar as anomalias de forma e de estrutura dos dentes segundo o período de desenvolvimento em que se produziram. As alterações da dentição temporária proporcionam-nos informação sobre os transtornos metabólicos ou ambientais que os dentes sofreram durante um período que começa no segundo trimestre de gravidez e se estende até depois do parto.
O desenvolvimento cronológico normal do dente E inicia-se pelas 10 semanas in útero, começa a calcificação entre as semanas 16 e 23 ainda in útero, e apresenta a coroa completa pelos 10-12 meses de idade. A sua erupção ocorre entre os 20-30 meses, a formação radicular completa-se pelos 3 anos, e a sua reabsorção inicia-se entre os 4-5 anos. Por fim a esfoliação deverá ocorrer entre os 11-12 anos de vida.
Dado ser o último dente decíduo a erupcionar nem sempre desperta o mesmo entusiamo nos responsáveis quando comparado aos restantes, mas será com certeza o mais importante nos cerca de 10 anos de função que deverá desempenhar, pelo que todas as estratégias preventivas deverão ser seguidas, entre as quais uma escovagem eficaz (efetuada por um adulto) no mínimo após o pequeno almoço e antes de dormir, utilização de fio dentário assim que se estabeleçam áreas de contacto (não pontos de contacto, o que os torna bem mais suscetíveis) e obviamente uma alimentação equilibrada.
Não sendo frequente, podem ocorrer transtornos eruptivos como a gengivite marginal inespecífica que se resolve por si só num espaço de tempo reduzido, ou alterações locais que requerem a nossa atenção, como no caso de quistos de erupção anunciados por manchas azuladas provenientes da acumulação de liquido na mucosa por atividade quística do gérmen durante o seu processo eruptivo e que podem alcançar uma dimensão considerável, requerendo a sua drenagem e provocando uma rápida erupção do dente afetado.
A passagem de uma função de sucção para outra completamente nova, como a mastigatória, associada aos contactos oclusais posteriores que se devem relacionar mediante um plano terminal reto ou vertical, assumem uma grande importância.

A anatomia do dente E assemelha-se a um primeiro molar definitivo, como se de um irmão mais novo se tratasse, sendo o mais suscetível dos temporários a lesões de cárie dentária, entre outras. A sua manutenção saudável é de extrema importância para as suas corretas funções, podendo, no entanto, ser imperioso efetuar tratamentos preventivos, ou restauradores, de forma a manter a sua sobrevida ideal, e a longitude de arcada:

  • Aplicação de vernizes fluoretados, selantes de fissuras, restaurações adesivas, coras pré-formadas, proteção pulpar direta, pulpotomia e pulpectomia. E o que nos poderá aportar a avaliação da sua relação oclusal em termos anteroposteriores? Um degrau distal determinará uma relação de classe II dos primeiros molares definitivos; se de um degrau mesial acentuado se tratar os primeiros molares definitivos vão erupcionar numa relação de classe III; num plano terminal reto ou um degrau mesial leve, vai depender do aproveitamento, ou não, do espaço de deriva para a futura relação molar definitiva. Relativamente a uma análise transversal, e se de uma mordida cruzada posterior se tratar, podemos questionar várias possíveis causas: fatores genéticos (hipoplasia do maxilar ou hiperplasia mandibular) ou adquiridos (uso prolongado de biberão e chupeta, sucção digital, pressão lingual por persistência de deglutição atípica, respiração oral, hipertrofia das adenoides, hipertrofia das amígdalas, anquiloglossia,…).
    E quando se deteta a erupção ectópica dos primeiros molares definitivos, devido a um padrão eruptivo mesioangular anormal, o dente E permito-nos, em várias situações, ser o ponto de apoio para iniciar a correção dessa anomalia. Na maioria dos casos em que por motivos de cárie, traumatismo ou reabsorção, se der a perda precoce do dente E, torna-se imperativo evitar a mesialização dos primeiros molares permanentes e manter o espaço para a erupção dos segundos pré-molares com a colocação de mantedores de espaço para
    evitar movimentos dentários indesejáveis e permitir uma correta oclusão.
    A anquilose pode ocorrer em ambas as dentições, sendo que a incidência mais comum envolve molares decíduos: 7 a 14%.

Se bem que a esfoliação de molares anquilosados se costuma dar naturalmente, a sua extração pode estar recomendada, se uma retenção prolongada se verificar, procurando evitar migrações dos dentes vizinhos. No caso de agenesia do dente permanente sucessor (hipodontia do segundo pré-molar inferior é a mais frequente, excluindo o terceiro molar) o segundo molar decíduo anquilosado pode ser restaurado para manter a sua função, ou ter indicações ortodônticas para exodontia.
Por fim, mas não menos importante, é de salientar o crescente diagnóstico de HSMD (Hipomineralização de Segundos Molares Decíduos) com uma prevalência de aproximadamente 11,2%. Sabendo que quem apresenta este quadro têm cerca de aproximadamente 5 vezes mais probabilidade de apresentar HIM (Hipomineralização Incisivo-Molar) que afecta 15 a 20% da população, com possíveis repercussões severas na dentição permanente, este é indubitavelmente mais um fator de alerta a ter em consideração.
Os devidos pontos nos ee! Visto de fora por especialista em odontopediatria.

Escrito por:

Prof. Doutor Luís Pedro Ferreira – Especialista em Odontopediatria
Presidente da Sociedade Portuguesa de Odontopediatria (SPOP)

Artigo retirado da Revista Clínica de Ortodontia da SPODF N.5

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