Controvérsias… e paradigmos

Mas esta deambulação matemática não é o que nos carateriza os 365,25 dias que a lei da gravitação de Newton valida e que à época alterou o paradigma vigente relativamente à mecânica celeste.
Pés assentes na “terra”, este ano poderá ser considerado um ano controverso e paradigmático.
Thomas Kuhn defininiu o conceito de paradigma como “constelação de crenças comungadas por um grupo”, ou seja, o conjunto das teorias, dos valorese das técnicas de pesquisa de determinada comunidade científica. Entendido dessa maneira global, ou seja, no sentido de “tradição pragmática”, o termo paradigma pode ser substituído por “matriz disciplinar”.
Matriz porque “composta de elementos ordenados de vários géneros, cada um dos quais exige maior especificação”. Disciplinar porque “se refere à posse de soluções concretas para os quebra-cabeças que constituem a pesquisa estavelmente fundada em um ou mais de um resultado atingido pela ciência do passado, aos quais determinada comunidade científica, por certo período de tempo, atribui a capacidade de constituir o fundamento da sua práxis ulterior”. Definições á parte, ninguém duvida que estes últimos meses têm sido paradigmáticos a todos os níveis. A globalização, nas suas várias formas, tem tornado todo o
tipo de distâncias mais “curtas” e isso tem resultado numa aceleração em todas as áreas.
A evolução tecnológica tem permitido uma diminuição virtual das distâncias e o atual contexto de pandemia potenciou as suas vantagens, criando uma alavancagem na utilização e conhecimento do mais variado tipo de plataformas digitais. Não quer isso dizer que tenha havido uma mudança de paradigma em todos os campos, mas sim uma mais rápida assimilação da realidade por vezes já existente. Talvez o exemplo mais pragmático e transversal tenha sido o conceito de “teletrabalho”.
O termo “teletrabalho” e a sua implementação surgem na década de 70, quando o mundo passava por uma crise do petróleo e surgiu a preocupação com os gastos de deslocação.
“(…) o que se dará é o seguinte: o radiotransporte tornará inútil o corre-corre atual. Em vez de ir todos os dias o empregado para o escritório e voltar pendurado num bonde que desliza sobre barrulhentas rodas de aço, fará ele o seu serviço em casa e o radiará para o escritório, em suma: trabalhará à distancia.(…)” – neste excerto de 1926, do livro “O Presidente Negro”, o autor brasileiro Monteiro Lobato previa esta realidade para o ano de 2200.

A evolução tecnológica associada à pandemia estimulou a generalização do já existente conceito de teletrabalho. Em Ortodontia, à constante evolução dos mais variados materiais/aparelhos, que por vezes tem suscitado apaixonada controvérsia, tem-se associado mais recentemente a virtualização de tarefas e processos. A alavancagem tecnológica terá nos próximos anos uma ação paradigmática no que à Ortodontia diz respeito?
O próximo ano, de 2021… capicua não é, e muito provavelmente será percecionado como o ano da “vacinação”, paradigma introduzido em 1798 por Edward Jenner, médico britânico. O atual conhecimento farmacológico e a necessidade planetária consentiram no acelerar da criação da vacina do momento.
A associação dos conceitos Farmacologia e Ortodontia traz à memoria o movimento dentário e toda a cascata de mediadores bioquímicos associados.
Numa abordagem ligeiramente diferente, essa associação recorda-me uma frase escrita por Weinstein e Haack: “Embora o mecanismo de controlo do movimento dentário seja basicamente biológico, este inicia-se por ação de uma força. Até que o movimento se consiga desencadear por ação farmacológica, o ortodontista estará sempre vinculado à mecânica”.
Esta afirmação, escrita em 1959, mantém-se ainda hoje atual. Uma ação farmacológica com a abrangência nos seus efeitos como a idealizaram Weinstein e Haack será com certeza o início de um novo paradigma no nosso “métier”.
Até lá, controvérsias à parte, de forma matricial e disciplinada, intuitiva, virtual/digital, ancorada das mais variadas formas, às cores, a preto e branco, com a filosofia xyz, o bracket β ou o alinhador α: as leis de Newton continuam a reger o nosso atual paradigma.

“E assim Acontece”.

Saúl Castro – Especialista em Ortodontia.
Professor Auxiliar da Faculdade de Medicina Dentária da U.P.

Artigo retirado da Revista Clínica de Ortodontia da SPODF N.5

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